2 de nov de 2011

A ARTE DE SER FELIZ


Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na
ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo
costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando
o céu ficava da mesma côr do ovo de louça, o pombo parecia pousado
no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentiame
completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No
canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde
iam as flores? quem as comprava? em que jarra, em que sala, diante
de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham
criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebêlas?
Eu não era
mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde
uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da
árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher,
cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da
altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque
isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal
expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão
compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os
assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que
parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um jardim quase seco.
Era numa época de estiagem, da terra esfarelada,e o jardim parecia
morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde,e,
em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as
plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para
que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o
homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e
meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam o muro. Gatos que abrem e fechamos olhos,
sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como
refletidas no espelho no ar. Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. Às vezes,
um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu
destino. Eu me sinto completamente feliz.
Mas quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante
de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que
só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é
preciso aprender a olhar, para poder vêlas
assim.

Cecília Meireles